Posts marcados na categoria textos

05 dez, 2010

Todo dia deveria ser um novo dia

– Mas, então, o que está acontecendo?
– Eu não sei. Não sei mais o que está acontecendo comigo. Só sei o que está deixando de acontecer. São noites mal dormidas, dores, sensações, sentimentos… São coisas que acabam me deixando pensativa, acorrentada, sem ter o que fazer.
– Tem certeza disso?
– Tenho! Lógico que eu tenho! São coisas que me acompanham durante todos esses anos, praticamente desde que eu descobri que não tinha poderes mediúnicos, mas sim que alguém estava precisando de mim.
– E esse alguém ainda precisa de você?
– Eu… Eu não sei. Ele parece tão bem longe de mim que eu fico com medo de estar esperando por algo que pode nunca acontecer.
– O que exatamente você está esperando?
– É loucura! – esbravejo. – Não posso falar assim… Para você! Eu mal te conheço!
– Como não me conhece? Estou contigo toda sua vida. Tenho precisado de você todo o tempo, mas você não percebeu!
– Ou não quis perceber!
– Exatamente! Sempre pedi socorro a você. Sempre cantei esperando que você escutasse. Sempre mandei sinais, mas você nunca…
– Eu tinha medo, tá legal?
– Medo? Medo de quê?
– Medo de não acontecer!
Ele então se aproxima de mim, apóia suas mãos em meus ombros, praticamente me segurando para não cair. Eu me sinto sem ar. O toque dele é exatamente como eu sempre pensei. Parece que uma onda muito forte passa por meu corpo. Fico com uma gastura horrível em meu esôfago, em pensar no que não está acontecendo. E quando estou prestes a desmaiar, ele sussurra:
– Estou aqui. Não precisa mais ter medo.
Encaro-o, porém me arrependo imediatamente do feito. Seus olhos estão tão próximos de mim… Eu posso ver aquela chama neles, exatamente como há alguns anos, quando eu não entendia o que sentia.
Abraço-o fortemente, como se aquilo pudesse impedi-lo de partir. Esperei tanto tempo por este momento que não quero sair dali. Poucas pessoas sabiam sobre isso, a maioria delas me criticava sem saber, mas, de qualquer forma, um pontinho de esperança germinava dentro de mim, agora florescendo.
– É tão bom finalmente te abraçar – sussurro, quase perdendo a voz, sentindo meu coração batendo na garganta.
– Digo o mesmo – e ele sorri.